28.4.04

VAMPIRO

José Sandoval dos Santos, brasileiro, 43 anos, completamente embriagado, ocupava o canto esquerdo da porta de entrada do bar do Haroldo. Umas poucas moscas rodeavam sua cabeça recostada à parede, as pernas flexionadas acompanhando os ângulos dos degraus. Dormia profundamente e não incomodava a ninguém, exceto Saddan.

Jurandir Pessoa, brasileiro, 32 anos, mecânico de manutenção, pai de dois filhos, casado com Raimunda Conceição. Freqüentava o bar do Haroldo aos sábados, mas não todos, pois às vezes lhe calhava de ficar no serviço, cobrindo o horário de algum outro funcionário. Era amigo de todos, exceto Saddan.

Roberto Carlos Romanelli, brasileiro, 23 anos, aluno de cursinho, recebera o nome em homenagem ao ídolo de sua mãe. Odiava-o, tanto o nome quanto o ídolo. Quinto ano de cursinho tentando uma vaga na faculdade de medicina. Vontade e sonho da mãe, ver o filho médico. Para suavizar a pressão, participava da trucada de sábado no bar do Haroldo. Não era muito chegado a liberdades com o pessoal, exceto Saddan.

Rubens Torturo, brasileiro, 70 anos, policial reformado, após uma vida de vícios, não bebia, não fumava, não comia carne vermelha. Ordens médicas, o organismo já não o favorecia. Viúvo, filhos espalhados pelo mundo, distraia-se no bar do Haroldo, ensinava a arte do Truco a todos, exceto Saddan.

Claudionor Novaes, brasileiro, 19 anos, menino de rua. Vivia de pequenos furtos e da venda de balas em semáforos. Aos sábados, no final da noite, ajudava o Haroldo a limpar o bar, não por gostar do Haroldo, mas pelos trocados que ganhava pela ajuda. Viciado em crack, vivia pedindo um real aos freqüentadores do bar, exceto Saddan.

Haroldo Coimbra, português, 58 anos, padeiro durante muito tempo, hoje dono de bar. Promovia todo sábado a trucada entre o pessoal do bar. A trucada não tinha fins sociais, apenas financeiros. Não se misturava com os fregueses, mantinha uma relação apenas comercial, exceto Saddan.

Saddan, vira-lata pulguento que adotara o bar do Haroldo como seu lar. Manco da pata esquerda traseira, cego de um olho, apresentava, a cada semana, uma ferida nova ganha nas disputas com outros cães.

Naquele sábado, sentados a mesa Jurandir, Roberto, Rubens e Claudionor jogavam sua partida de truco. Haroldo, recostado ao balcão, enxugava os copos recém lavados. Saddam fitava um pedaço de salsicha que se projetava para fora do prato. José Sandoval continuava caído na porta.

A alguns quarteirões de distância do bar do Haroldo, num barraco que funcionava como ponto de drogas, dois traficantes analisavam a nova arma, turca, uma metralhadora de alta velocidade, seis balas por rajada. Boa pra matar policia, disse com um sorriso maldoso. Para demonstrar o poder de fogo, levou a arma na altura do ombro, mirou através da janela e disparou.

Rubens Torturo levanta-se e grita: SEIS! Seis balas atravessam-lhe o tórax. O corpo cai inerte para trás. Na mesa, o copo de pinga do Jurandir rodopia em torno de si mesmo, mas não tomba. Gotas de sangue ainda em suspensão caem no copo, tingindo a pinga de vermelho.

Todos se assustam, fora tudo tão rápido. Saem para a calçada. Haroldo chora. Saddam não. Roberto com as cartas ainda nas mãos pensa nos pais. Jurandir, gotas de sangue pelo rosto, pensa nos filhos. Claudionor nada pensa, está acostumado a ver mortes.

José Sandoval acorda. Da sua posição não vê o corpo de Rubens, não vê o pessoal que saíra do bar. Apenas vê o copo na mesa, pensa: Bombeirinho!
Haroldo move o olhar para dentro do bar. José Sandoval, cabeça inclinada para trás, bebe a pinga sangrenta. Aos terminar o gole, leva os olhos abaixo e vê Rubens.

Saddan trocou de bar. Haroldo voltou a Portugal. Nada mais se soube. Claudionor continuava nos semáforos. Roberto passou em medicina. Desistiu. Não pode ver sangue. Jurandir ainda sentia o sangue no rosto. José Sandoval ainda bebia. Chamam-no Vampiro.

(by DEGA)


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